
Humanização da Finitude do Homem – Cuidados Paliativos.
Artigo do Prof. Dr. Marco Tullio de Assis FigueiredoProfessor da Disciplina Eletiva de Cuidados Paliativos da Unifesp-EPM.Chefe do Setor de Cuidados Paliativos da Disciplina de Clínica Médica da Unifesp-EPM- EPM.Coordenador do Capítulo de Cuidados Paliativos da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.Sócio Fundador da International Association for Hospice and Palliative Care. Houston – EUA.
O que eu vou relatar abaixo foi extraído da tese de doutorado da Enfermeira Mara Villas Boas Carvalho,(1) defendida e aprovada, na Escola de Enfermagem da USP, em 2003.
Trata-se de alguns dos depoimentos feitos por 11 pacientes portadoras de câncer avançado, na fase terminal, identificadas com (d-numeral), onde d = depoimento e numeral = número da paciente.
Tenho muita dor. Eu sinto que as pessoas perdem a paciência com a gente. Elas acham que a gente está com frescura, fazendo fita, que sinto dor porque quero. (choro) Não é bem assim. A dor é muito forte. Às vezes acho que não vou agüentar, não vou dar conta.
Quando ela (dor) vem, peço a Deus me levar embora o quanto antes. Quantas vezes a gente toca a campainha para chamar as enfermeiras para nos dar o remédio, e elas levam um tempão pra virem, isso quando vêm.
As companheiras de quarto é que acabam levantando da cama e vão chamar as moças. Aí elas vêm e acham ruim. Elas falam que eu não sei esperar, eu sou muito afobadinha, e dizem que tenho que ter paciência. Sabe, a dor não é nelas.
A médica vem de manhã me ver, eu falo com ela para dar um remédio mais forte pra tirar a dor, e o que acontece? eu acho que elas esquecem, eu continuo tendo dor.” (d-1)(1)“Você não imagina como é bom quando alguém fica perto de mim, me escutando... Eu fico sozinha o tempo inteiro, não tenho ninguém para me ouvir. (choro)
Sabe, isso aí que você está fazendo, ficando ao meu lado, ajuda a desafogar.” (d-1)“Os profissionais precisam ser mais humanos, eles acham que o câncer só dá na gente, que eles são intocáveis. Sinto que falta complementar o atendimento, o cuidado.
É olhar mais para a gente, prestar mais atenção no que a gente necessita falar, escutar mais com atenção aquilo que a gente tem que falar, precisamos de devolutivas, e não fazer de conta que estão ouvindo. Percebo que eles entram aqui só para cumprir tabela, é muito mecânico demais, tudo muito fragmentado.
Vejo as discussões dos professores com os alunos no pé da cama, eles não têm nenhuma preocupação com a pessoa que está doente. O foco da discussão é a doença e não vejo nenhuma integração com a pessoa. Na minha visão, o grande responsável por isso é o professor que estimula no aluno a visão técnica, a patologia.” (d-4)“Para mim iniciou-se mais uma etapa de esperança, sendo que esta médica, digo sem medo de errar, é um amor, principalmente pelo lado humano de me tratar. Está sempre disposta para responder todas as minhas dúvidas.” (d-5)“Sabe, o câncer é uma doença terrível.
Precisamos da medicina, mas também sem Deus tudo seria em vão. Em uma dessas internações, conheci um médico que cuidou de mim quando extravasou químio em meu braço, o Dr G., um médico humilde, carinhoso. Chegou bem pertinho de mim e me falou de Deus... Como foi bom para mim, saber que um médico teve tanta sensibilidade naquele momento e me falou em Deus, me fez refletir uma porção de coisa.” (d-5)“Venho aqui de urgência. A entrada é pelo pronto-socorro. Fico naquelas macas estreitas, horas e horas, ninguém te assume, fico exposta nos corredores. Cada um que chega, você tem que estar repetindo sempre a mesma história. Você não imagina como isso é triste, é deprimente, é desumano, é demais, já não chega a doença desumana?” (d-11)*Sinto que quanto mais eu pioro, mais vejo eles (médico e enfermeiro) afastarem-se de mim, menos eles conversam, mais distantes estão, a gente nessa agonia. Quero ouvir deles o que está acontecendo. Eu te pergunto: você acha que eu vou morrer? Tenho medo.
O que está acontecendo de verdade? Continuo a ter esperança ou já desisto de vez? Faço planos futuros? Como é que vão ficar meus filhos?” (choro). (d-2)“Eu já fiquei internada quase dois meses, e vi o profissional estar ali, com a paciente, ela a reclamar de dor até morrer.
Ela era minha colega de quarto, morreu do meu lado. (choro) Ela gritou de dor, e uma enfermeira chegou e disse para ela “que ela estava mole, que ela estava com corpo mole”. Isso entrou lá na minha alma, quando eu ouvi ela falando isso, sabe? A enfermeira falou para ela parar de gritar, porque estava incomodando os outros... Eu presenciei todos os momentos da minha amiga, eu senti pela pessoa, porque aqueles gritos dela entravam na minha cabeça, na minha alma. Depois que ela morreu, que o quarto ficou silencioso, eu ainda tinha os gritos dela na minha cabeça.
Fui embora para minha casa com os gritos dela na minha cabeça!” (d-8)“O que eu sinto, nessa trajetória que estou vivendo, é que os profissionais de saúde se trancam e não estão nem aí com o problema do outro, não se emocionam com nada, com a dor do outro, são umas pessoas pobres de espírito. Primeiro você precisa trabalhar e fazer o que você gosta.
A pessoa tem que se gostar muito para gostar do outro. O que a gente vê são muitos profissionais descontentes, mal-humorados, são sem paciência.” (d-9)*Gostaria de pedir uma coisa para você, para as demais enfermeiras, para os médicos, não sei se vai ser possível. (choro) Você nunca viveu sua morte, eu estou vivendo ela aos poucos. Tenho certeza dela. Por mais que as pessoas falam para mim, tenha força, você vai melhorar, sei que isso não é verdade, é tudo muito falso. Quero pedir para você estar ao meu lado.” (d-11)
A simples leitura dos depoimentos acima dá a dimensão do real sofrimento dos pacientes em processo de finitude. São evidentes as queixas de sofrimento do físico (dores, náuseas, vômitos, etc.), da psique (solidão), do espiritual (apelo a Deus, perda do significado de vida), do social (preocupação com a família, com a situação econômica, etc.). O conjunto desses sofrimentos já é motivo para verificar que dificilmente todos eles poderão ser efetivamente controlados por médico e por enfermeira. Há necessidade de realização de um apoio multiprofissional, o qual só é possível ser alcançado pela ação da equipe dos Cuidados Paliativos.
A ação da equipe efetiva-se através de um conjunto de requisitos pessoais e coletivos, quais sejam, a competência, a compassividade, a solidariedade, a humildade e a comunicação.A tese da Enfermeira Mara Villas Boas Carvalho(1) é riquíssima em ensinamentos de humanidade emanados dos lábios e das almas das pacientes portadoras de câncer avançado, sem recursos terapêuticos de cura. E esses ensinamentos deveriam ser lidos e meditados por todos os profissionais e familiares, cuidadores ou não, a fim de transferirem aos pacientes cuidados de carinho, compaixão e amor, no dia-a-dia do acompanhamento até o derradeiro minuto. O coroamento do cuidar é a dignidade e tranqüilidade do moribundo, e a realização máxima do profissional e/ou cuidador, como ser humano completo, isto é, digno da misericórdia de Deus.
Infelizmente, nos cursos de medicina e de enfermagem do modelo ocidental, não é ensinado aos estudantes:1. Morte e processo de morrer, conhecimento imprescindível a essas profissões, que no seu diário lidam com pessoas em processo de morrer e morte;2. Na graduação e na pós-graduação há uma excessiva ênfase no progresso científico das mesmas, e um progressivo abandono do relacionamento humanitário entre médico/enfermeira de um lado e paciente/família do outro.
Esses dois fatores estão a indicar a urgente necessidade de rever o ensino na graduação da medicina e da enfermagem. Tanto os profissionais como os leigos estão a cada dia mais insatisfeitos com a inter-relação de ambos, o que é demonstrado pelas corriqueiras infrações da ética profissional e da perda de prestígio dos profissionais na comunidade. A correção desta anomalia está na reforma do currículo da graduação, por meio da introdução de uma Disciplina de Cuidados Paliativos, como apontada por Figueiredo.(2)Aliás, a falha apontada acima ocorre também na Constituição Brasileira da 1988, a dita Constituição-Cidadã, como está apontado por Ceneviva.(3)A Medicina atual tem sido incansável no empenho de prolongar a vida de seus pacientes, com sucesso extraordinário.
A mesma atenção, contudo, não tem sido aplicada para minorar angústias e sofrimentos de moribundos e portadores de moléstias incuráveis.Cabe dizer que o artigo 196 da Carta Magna estimula a omissão. Para esse artigo, a saúde é direito de todos e dever do Estado, mas com finalidade expressa aplicada na redução do risco de doenças e de outros agravos, bem como para promoção, proteção e recuperação da pessoa. A norma, como se vê, privilegia corretamente a recuperação, mas falha ao manter-se concentrada na predominante preocupação de retardar a morte, embora inevitável, nos limites do conhecimento disponível, ainda que impondo novos sofrimentos ao enfermo e a sua família. (O destaque é do presente autor.)
A maior dificuldade enfrentada pelos paliativistas em todo o mundo, com maior ou menor intensidade, advém dos médicos e enfermeiros. Esses profissionais comiseram as ações dos paliativistas, dando-lhes uma conotação negativista ao considerá-las como ações não científicas e portanto desprovidas de racionalidade. Há nessa atitude um evidente equívoco, pois a medicina científica e a medicina paliativista não são antagônicas, mas sim simbióticas.(4)
Uma não deve interferir na ação da outra, mas sim complementarem-se, resultando no benefício global do paciente.
REFERÊNCIAS
1. Carvalho MV. O cuidar no processo de morrer – uma atitude fenomenológica. [Tese de Doutorado] Defendida na Escola de Enfermagem da USP; 2003.
2. Figueiredo MTA. Educação em cuidados paliativos: uma experiência brasileira. Prática Hospitalar Ano III set/out 2001;nº17:43-48.
3. Ceneviva W. A dignidade da morte desafia a medicina. Folha de S. Paulo. C2 Letras Jurídicas, 07/0/12/2001.
4. Doyle D. Au revoir. Discurso pronunciado no III symposium and meeting do International Institute and College, ao despedir-se da Presidência do mesmo, setembro de 1999, Genebra, Suíça.
Artigo original disponível em: http://www.praticahospitalar.com.br/pratica2041/pgs/materia%2018-41.html
Link para o site da Assossiação Brasileira de Cuidados Paliativos:
3 comentários:
Todos os pacientes,precisam de atenção! não só de cuidados médicos, eu fiquei quase 1 mes com minha mãe na Oncologia do costa cavalcanti :(... lá as pessoas estão mais sensiveis, mais carentes muitas vezes só uma conversa já acalma elas.
graças a deus, lá as enfermeiras eram um amor de pessoa, trataram super bem minha mãe, i os outros pacientes tbm :) infelizmente não são todos assim ¬¬*
muito triste o relato dessa senhora.
Realmente Fran, você tem razão no comentário sobre a fragilidade emocional desses pacientes. Imagine o quanto a enfermagem ainda pode se envolver e fazer a diferença do dia-a-dia dessas pessoas?
Esperamos contribuir para construção de um cenário de cuidados integral e holístico, como a enfermagem deve realmente ser.
Tenha um dia DYNAMITE meu amigo!
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